Primeira quimioterapia: o que esperar, os efeitos e como se preparar?
Primeira quimioterapia: o que esperar, os efeitos e como se preparar?

A palavra quimioterapia carrega um peso que vem de décadas. O paciente que recebe o diagnóstico já chega ao consultório com uma imagem formada: perda de cabelo, náusea constante, vômitos, dor, cansaço. Essa imagem vem de cenas de filme, de histórias de família, de uma memória coletiva sobre como o tratamento de câncer parece.
A quimioterapia mudou. O suporte ao tratamento melhorou. A especialidade, Oncologia, que era nova até pouco tempo atrás, se desenvolveu. E entender essa diferença antes da primeira sessão pode ajudar a mudar a forma como o paciente atravessa o tratamento.
O que é a quimioterapia e como ela age?
Por definição, quimioterapia é qualquer terapia capaz de destruir células cancerígenas. Ela pode ser feita de diversas formas, como: aplicação intravenosa, subcutânea (abaixo da pele), intramuscular (no músculo) ou por via oral (pela boca) e pode ser organizada em ciclos com intervalos calculados para permitir a recuperação do organismo.
Isso inclui o que a maioria imagina quando ouve a palavra, mas também tratamentos com perfis completamente diferentes, e com um suporte muito melhor aos efeitos colaterais. A imunoterapia e a terapia-alvo molecular, por exemplo, entram nessa categoria e têm efeitos colaterais que pouco se parecem com o quadro clássico.
As células do câncer se multiplicam mais rápido do que as células normais, e é contra essa multiplicação que os agentes quimioterápicos atuam, cada um em um momento diferente do ciclo celular. É por isso que, na maioria dos protocolos, mais de um agente é combinado. Um atua em uma fase da divisão, outro complementa em outra. Juntos, são mais eficazes do que cada um isolado.
O que esperar na primeira sessão?
A primeira sessão começa muito antes da infusão. Começa na consulta em que o oncologista explica o protocolo, os objetivos do tratamento e o que o paciente pode esperar em termos de efeitos colaterais específicos.
Dependendo do protocolo, o tratamento pode ser feito por via intravenosa no hospital, ou pode ser um comprimido que o paciente toma em casa. Mas a escolha da modalidade vai depender da particularidade de cada paciente, do tipo, estágio e extensão do câncer, além da terapia usada.
A recorrência das sessões podem variar; pode ser uma sessão por semana, a cada duas semanas, ou a cada três. O intervalo entre as sessões é calculado para atacar a fase de divisão celular e destruir células malignas. Isso se chama ciclo, e não é negociável por conveniência, embora ajustes por toxicidade e necessidade sejam feitos quando necessário.
A dose também é calculada, geralmente com base no peso ou na superfície corporal de cada paciente. Quando os efeitos colaterais estão além do esperado, o oncologista pode reduzir a dose. Isso não significa que o tratamento ficou menos eficaz. Significa que está sendo ajustado para que o paciente consiga completar o protocolo com segurança.
O que devo levar para a primeira sessão de quimioterapia?
Sessões de quimioterapia intravenosa podem durar de uma hora a várias horas, dependendo do protocolo. Roupa confortável, fácil levantar para que o acesso ao braço seja fácil, é o essencial. Levar algo para comer durante a infusão pode ajudar, especialmente se o estômago estiver sensível. Apesar de que alimentos são geralmente oferecidos nos sistemas de saúde. Uma manta fina costuma ser útil. Um familiar ou acompanhante é bem-vindo e, em muitos centros, permitido. Levar uma lista de perguntas anotadas evita que dúvidas importantes fiquem para depois. Importante registrar as drogas que recebeu, e os dias em que recebeu infusão. Para não faltar essa informação na consulta ou num possível atendimento no pronto socorro. Essas datas são super importantes.
Quais os efeitos colaterais da quimioterapia?
Os efeitos variam conforme o protocolo, e nenhum paciente vai ter todos eles. O oncologista apresenta na primeira consulta quais são os efeitos esperados para aquele tratamento em específico.
Os mais comuns na quimioterapia convencional envolvem as células do sangue, com queda de glóbulos brancos, que reduz a imunidade e aumenta o risco de infecção, queda de glóbulos vermelhos, que provoca anemia e cansaço, e redução de plaquetas, que pode facilitar sangramentos (hematoma, sangramento na gengiva, etc). As células do trato digestivo respondem com náusea, aftas, diarréia. A pele e os folículos capilares podem provocar queda de cabelo em alguns protocolos. Mas esses efeitos são temporários.
Existem também efeitos de longo prazo que merecem atenção antes de começar, especialmente para pacientes em idade reprodutiva. Alguns protocolos podem impactar a fertilidade, e essa conversa precisa acontecer com antecedência, porque existem estratégias de preservação que precisam ser iniciadas antes do tratamento.
Posso ter náusea na quimioterapia?
Os antieméticos modernos, medicamentos que previnem náusea e vômito, avançaram significativamente nas últimas duas décadas. Protocolos com alto potencial anti-emético hoje são manejados com controle muito mais eficaz. A maioria dos pacientes com suporte adequado raramente vomita.
Quando o cabelo começa a cair depois da quimioterapia?
Depende do protocolo. Nem toda quimioterapia causa queda de cabelo. Para aquelas que causam, existem tratamentos de resfriamento do couro cabeludo que podem ajudar a reduzir significativamente a queda em alguns casos. Isso não quer dizer que ele funciona para todos os tipos de pessoas e nem que todos os pacientes terão o mesmo resultado, mas é uma possibilidade que pode ser discutida antes da primeira sessão.
Quanto tempo dura o tratamento com quimioterapia?
Depende do tipo de câncer, do estágio e do objetivo do tratamento. O oncologista apresenta o número de ciclos previstos e a frequência de cada sessão já na primeira consulta. Alguns tratamentos têm duração definida, outros são contínuos enquanto houver resposta e boa tolerância.
O objetivo do tratamento também define a duração. A quimioterapia feita antes de uma cirurgia, para reduzir o tumor, tem um número de ciclos programados. Já a que é feita depois, pode ser para reduzir o risco de recidiva. Se feita de forma contínua, para controle da doença metastática, o critério de parada é diferente, baseado em resposta e tolerância ao longo do tempo.
O mais importante antes da primeira sessão é não se desesperar e alinhar as expectativas com um Oncologista. Saber exatamente o que é esperado e o que foge do esperado, o que pode ser controlado e o que precisa ser monitorado, como se organizar para fazer as terapias corretamente, é essencial!
Quanto melhor esse controle ao longo do tratamento, mais seguro e mais eficaz ele tende a ser.
Quer entender mais sobre esse assunto? Ouça o Podcast Câncer Cast em que a Dra. Ana fala com mais profundidade sobre esse assunto.
Dra. Ana Paula Garcia Cardoso, Médica Oncologista Clínica do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. É diretora educacional do LACOG- GU (Latin American Collaboration Group for Genitourinary Tumors), membra do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer e colaboradora do portal Oncoguia. Especialista no tratamento de tumores renais (câncer de rim), câncer de próstata, bexiga, testículo, pênis e adrenais (trato geniturinário), com foco em medicina baseada em evidências e no acolhimento integral do paciente.
Perguntas frequentes sobre a primeira quimioterapia
O que é quimioterapia e como funciona?
Quimioterapia é o termo para tratamentos que destroem células em divisão rápida, como as do câncer. O tratamento pode ser intravenoso ou oral, e é organizado em ciclos com intervalos calculados para matar a maior quantidade de células malignas.
Vou perder o cabelo na quimioterapia?
Depende do protocolo. Nem todas as quimioterapias causam queda de cabelo.
A redução de dose significa que o tratamento ficou menos eficaz?
Não necessariamente. Ajustes de dose são feitos para garantir que o paciente consiga completar o protocolo com segurança. Reduzir a dose da quimioterapia quando os efeitos colaterais estão acima do tolerável não compromete a eficácia, garante que o tratamento continue possível.
É possível trabalhar durante a quimioterapia?
Depende do protocolo e da tolerância individual. Muitos pacientes mantêm atividades normais, especialmente com tratamentos orais ou protocolos de menor toxicidade. O oncologista avalia caso a caso e pode fazer ajustes para que o paciente consiga conciliar tratamento e rotina da melhor forma possível.




